Artigo · Comportamento & Futuro

Por que entender comportamento virou um ativo estratégico

Vinil, câmeras analógicas e livros impressos: o que o retorno do físico revela sobre foco, presença e vantagem competitiva.

Marcele Brunel·19 jul 2026·8 min de leitura
Comportamento & Futuro
Ilustração editorial sobre vinil, câmera analógica e livros impressos

Toda decisão de produto, marca ou negócio deveria começar pela mesma pergunta: como as pessoas estão vivendo hoje? Não pelo que elas dizem em uma pesquisa, mas pelo que fazem de fato. É o comportamento que mostra onde elas colocam tempo, dinheiro e atenção. E, no fim, é isso que determina o sucesso ou o fracasso de uma solução.

Muitas empresas ainda olham primeiro para dados demográficos ou para tendências de mercado, quando o comportamento costuma antecipar as mudanças. É ele que revela necessidades que ainda nem foram verbalizadas. Quando essa leitura não acontece, o resultado é conhecido: produtos tecnicamente bons, mas que simplesmente não encontram espaço na vida das pessoas.

Um exemplo claro é o movimento da Geração Z em direção ao mundo físico. O aumento do interesse por vinil, câmeras analógicas e livros impressos costuma ser tratado como nostalgia. Mas os dados apontam outra direção: trata-se de uma reação ao excesso de estímulos e à hiperconexão.

O retorno do vinil

Em 2025, as vendas de discos de vinil nos Estados Unidos ultrapassaram US$ 1 bilhão pela primeira vez desde 1983, completando 19 anos consecutivos de crescimento. No mercado global, a música em formato físico alcançou US$ 5,3 bilhões em receita.

Entre a Geração Z, esse movimento é ainda mais evidente. Segundo a Vinyl Alliance, 76% dos consumidores de vinil dessa geração compram discos pelo menos uma vez por mês. Já um estudo da VML mostra que 35% dos jovens passaram a adotar hobbies analógicos como uma forma de reduzir a fadiga causada pelo ambiente digital.

A volta das câmeras

Outro mercado que parecia encerrado voltou a crescer. As vendas de câmeras analógicas aumentaram 127% desde 2020, enquanto centenas de novos laboratórios de revelação abriram as portas apenas em 2025.

Quase metade das compras de câmeras de filme já é feita por consumidores entre 18 e 34 anos, e 68% dos jovens que fotografam como hobby utilizam câmeras analógicas regularmente.

O mesmo acontece com as câmeras digitais compactas. Em 2025, o segmento voltou a crescer, impulsionado por criadores de conteúdo que passaram a buscar imagens menos perfeitas e mais espontâneas, em contraste com a estética altamente processada produzida por filtros e ferramentas de IA.

O livro impresso continua forte

Apesar da ideia de que os jovens têm cada vez menos capacidade de concentração, o mercado editorial mostra um cenário diferente.

O crescimento impulsionado pelo BookTok levou os livros impressos a níveis históricos de vendas nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, centenas de livrarias independentes voltaram a abrir.

Entre os motivos apontados pelos próprios leitores aparecem sempre os mesmos: reduzir o tempo de tela, diminuir o cansaço visual e conseguir uma experiência de leitura com menos interrupções.

O que conecta tudo isso

Quando olhamos esses movimentos em conjunto, o padrão fica claro.

Segundo a YouGov, 47% das pessoas com menos de 30 anos afirmam estar tentando reduzir deliberadamente o tempo de tela. Uma pesquisa da Talker Research, realizada em 2026, encontrou um percentual ainda maior: 63% da Geração Z disseram limitar o uso do digital como estratégia para melhorar o bem-estar.

Não estamos vendo uma rejeição à tecnologia. Estamos vendo uma busca por experiências que devolvam foco, presença e ritmo.

A leitura estratégica

O ponto em comum entre o vinil, a câmera analógica e o livro impresso é que todos exigem algo que o ambiente digital passou anos tentando eliminar: fricção.

Eles pedem tempo. Exigem atenção. Não entregam recompensa instantânea.

É justamente isso que tem valor para uma geração que cresceu cercada por notificações, algoritmos e consumo contínuo.

Para quem trabalha com inovação, design ou desenvolvimento de produtos, essa é a principal leitura. Entender comportamento não é identificar uma tendência interessante para colocar em uma apresentação. É perceber mudanças na forma como as pessoas vivem antes que elas se consolidem no mercado.

Porque vantagem competitiva não nasce de acompanhar tendências. Ela nasce de entender mudanças de comportamento enquanto elas ainda estão acontecendo.